3.10.2012

Governo disponibiliza 100 milhões de euros a partir de abril para programa de emergência alimentar

Solidariedade: Governo disponibiliza 100 milhões de euros a partir de abril para programa de emergência alimentar Coimbra, 09 mar (Lusa)

O secretário de Estado da Solidariedade e Segurança Social, Marco António Costa, disse hoje que o Governo vai injetar, a partir de abril, 100 milhões de euros no programa de cantinas e emergência alimentar para pessoas com carência.

"Este programa é para garantir que quem necessitar desse apoio tenha acesso sem necessidade de existência de nenhum tipo de referenciação ou listagem, pois nós queremos que seja preservada a individualidade, a dignidade e confidencialidade das pessoas", referiu o governante.

Marco António Costa falava aos jornalistas à margem da inauguração do lar de idosos Cristo Redentor, no Senhor da Serra, em Miranda do Corvo, uma unidade com capacidade para 60 pessoas, que funciona desde outubro.

O secretário de Estado da Solidariedade e Segurança Social reiterou que a prioridade do Governo é canalizar todos os meios financeiros de que disponha para apoiar as pessoas, promovendo ao máximo a sua inclusão social.

"É por isso que este ano descongelámos as pensões mínimas a mais de um milhão de pensionistas, lançámos o Estímulo 2012 de contratação de desempregados, que tem a aspiração de chegar a mais de 50.000 portugueses, e temos tido a preocupação de criar planos de apoio na área alimentar aos portugueses que sintam carências a esses níveis, fazendo-o sem promover uma ideia assistêncialista", sublinhou.

No caso do programa de cantinas e emergência alimentar, Marco António Costa disse que estão a ser implementados todos os mecanismos para que no mês de abril o programa arranque no terreno "com toda a força".

Segundo o governante, a rede de apoio alimentar vai passar de 50 pontos para mais de 960 em todo o país: "[Será] fundamentalmente assente nas estruturas já existentes no terreno, que estão a funcionar, que têm um conhecimento muito próximo da realidade social e que, portanto, com facilidade transportam o programa para o terreno, ajudando as pessoas".

Marco António Costa frisou ainda que o Ministério está a trabalhar na sustentabilidade do setor social e solidário, nomeadamente na viabilização das Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS), misericórdias e associações mutualistas que estão em dificuldades financeiras.

Também em abril, adiantou, o Governo deverá disponibilizar às instituições uma linha de crédito de 50 milhões de euros.

A seleção das candidaturas e a gestão das verbas serão analisadas pela Segurança Social, em conjunto com uma comissão constituída pelos representantes da Confederação Nacional de IPSS, da Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade (CNIS), da União das Mutualidades e da União das Misericórdias.

Durante o dia de hoje, o secretário de Estado da Solidariedade e Segurança Social deslocou-se também a Coimbra, onde se reuniu com a Comissão de Proteção de Jovens em Risco, e visitou a Santa Casa da Misericórdia da Lousã.

AMV.

Lusa/Fim.

Data: Sáb, 10 Março 2012 14:56

Remetente: "Imprensa: imprensa@marcoantoniocosta.com

3.08.2012

O TRABALHO COM ESTATUTO DE DEVER SOCIAL

Se não devemos ser escravos do trabalho, também não devemos escravizar-nos pela falta dele. Só os animais irracionais sobrevivem sem trabalhar. Os herbívoros pelos vegetais, os carnívoros pela caça. E se as abelhas e as formigas produzem os seus alimentos, é porque são detentoras de alguma racionalidade.

O homem, salvo algumas excepções, revela-se civilizado e exprime nível inter-social. O que lhe falta para completar a condição de superior é a construção da paz e a melhoria da prática da humanização.

Indivíduos que atingem o topo hierárquico se nunca se desprenderem da sua condição de medíocres, são também responsáveis pelo arrastar da mediocridade, conseguindo o poder por processos marginais à competência e bom senso.

Os saberes e as competências não se revelam eficientes se não forem moderados pelo bom senso. Comprovadamente, a mediocridade tem peso nefasto e contrapõe-se às competências e às índoles saudáveis.

O maior capital que um país pode amealhar reside no capital humano. Vejamos o exemplo de países de parcos recursos que conseguem progredir mais que outros que comportam elevadas riquezas naturais. Na medida em que as competências e o bom destronarem a mediocridade, o mundo passará a ser bem melhor…

Nas relações laborais, é de interesse mútuo que os patrões e empregados formem uma família na melhor das coesões. A reciprocidade de interesses e a amizade devem de funcionar. O patrão não pode ser amigo do empregado quando este não zela pelos interesses em comum. Porque o empregado também fica prejudicado quando, em vez de executar um trabalho sério e rentável, cria cisões nos seus colegas e os atrai para as confrontações. Por sua vez, quanto maior for a rentabilidade de uma empresa, maior é a possibilidade de aumento dos ordenados. São os próprios empregados que, pela sua eficiência, garantem as remunerações. Se acontecer o contrário a empresa degrada-se e os empregados ficam em piores condições.

No que respeita aos patrões, devem entender que a paz laboral, o bom entendimento, o respeito mútuo e a amizade são criadores da estabilidade. É de significativa importância que os empregados se sintam no seu local de trabalho como se estivessem na sua casa. Desta forma criam-se estados de espírito de bem-estar e de solidariedade. E os patrões só têm a ganhar com a tranquilidade dos empregados.

Mas esta preconizada família também pode sofrer convulsões relacionadas com a falta de escoamento da produção ou com um desastre qualquer. Convulsões que obrigatoriamente criam mal-estar e que até podem levar a empresa ao encerramento. É nestas situações que mais se faz sentir o entendimento e a solidariedade pois, com o conjunto esforço, pode ser possível assegurar o funcionamento até à vinda de melhores dias. Por vezes evita-se o pior dividindo os esforços e os prejuízos e quando tudo melhorar, todos serão beneficiados.

Atenção aos empresários: não se podem esquecer que os empregados fazem parte da sua família e de que não devem cometer devaneios e aventuras conducentes à desestabilização familiar. E de que, a cada pessoa que inicia uma empresa e dá emprego, lhe incumbe também a boa gestão como imperativo responsável para a criação de prosperidade, não apenas em benefício próprio como também dos empregados, a quem deve atribuir salários condignos para que a dignidade das suas vidas credencie a empresa para quem trabalham.

Aos empregados cabe também, além do mais, estabelecerem a sã cooperação entre si como factor de união no sentido de acrescida eficiência na rentabilidade.

A consonância dos imperativos e comportamentos aqui expressos resultarão, obviamente, na prática do trabalho com o estatuto de dever social e intersocial.

Texto extraído do livro “Bíblia do Futuro”.

Promoção e Dignificação do Homem

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Dignifique-se ajudando a promover e dignificar os outros...

publicado por promover e dignificar às 09:44

3.04.2012

Época de descontentamentos

Na época actual uma onda de nervosismo avassala a consciência de todos os povos e até de todos os indivíduos. A vida presente, cheia de descontentamentos, de ansiedades, de desvairadas manifestações e orgias, perturbada por contínuas mudanças, oferece o terreno apropriado para o desenvolvimento das vontades paranóicas e loucas.

Assim como há artistas, poetas, escultores, etc., que julgam ter editado a última palavra do saber humano, também os há que se julgam predestinados por Deus ou indicados pelo «inexcedível» valor pessoal para desempenhar um grande papel, um caminho salvador junto do seu povo e dos seus semelhantes. E, então, todo o tempo é pouco para falar de si, dos seus êxitos, das suas reformas, da sua administração e, em discursos inflamados e, atitudes arrogantes, indicam um «luminoso campo de prosperidades e grandezas.

O paranóico ambicioso não luta mais pelo engrandecimento do seu povo do que pela exteriorização dos seus sentimentos, das suas vaidades. O seu vestuário denotará imponência; os seus gestos serão bruscos e arrebatados; a sua palavra, fácil e cativante. Prometerá o que não tem nem pode dar e arrastará as multidões para onde muito bem lhe aprouver. Esquece muitas vezes os que, na sombra, quase no esquecimento, revolucionaram os processos científicos, sempre humildes, sempre afastados da sociedade. Estes, sim, que são os grandes obreiros da humanidade. Que tudo dão e nada esperam, sacrificando a vida inteira em proveito dos seus semelhantes.

O paranóico político é um exaltado, exagerando palavras e actos. O homem de ciência é calmo e reflectido, auscultando tudo com paciência, vivendo continuamente recolhido, sentindo-se pouco à vontade em frente dos seus semelhantes, não gostando de cortesias nem de manifestações. O político, pelo contrário, sente-se bem apenas no meio de aplausos vibrantes, no delírio das turbas inconscientes e sugestionáveis. O maior perigo do paranóico político está em arrastar o seu povo para a guerra, considerando-a quase sempre um fim legítimo, para satisfazer a sua ambição e realizações desmedidas.

Quando Mussolini prefaciou o Príncipe de Maquiavel, mostrou bem perfilhar a ideologia deste pensador. Maquiavel foi o incentivo das aspirações desmedidas da política dos grandes Estados. Estes, aconselhava ele a Lourenço de Médicis, têm o direito de se tornarem grandes e poderosos, atingindo os seus fins sem olhar aos meios. Todo o homem deve ser, simultaneamente, homem e raposa; homem para medir o perigo, evitando-o, e raposa para escapar aos laços e ratoeiras humanas. Enquanto os demais Estados se iam unificando e tornando vigorosos, a Itália encontrava-se, nessa altura, fragmentada por contínuas lutas intestinas que lhe ensombravam, a sua capacidade de realização. E, então, toda a população da Itália se agrupa em volta das cinco cidades importantes: as repúblicas de Veneza, Florença, o reino de Nápoles, o ducado de Milão e o território da Igreja de Roma.

Maquiavel pôs de parte todas s instituições existentes, rompeu com a palavra eterna do Evangelho, os princípios do direito e até da justiça e tornou-se o primeiro político que encarou o problema das nações pelo lado prático e utilitarista. Considerou o Estado superior aos indivíduos e para que as suas doutrinas não suscitassem escândalo, teve o cuidado de separar a política da mora. Todos os processos seriam legítimos se contribuíssem para o engrandecimento do Estado e a própria religião passaria a ser um instrumento político. O governante teria, segundo os princípios de Maquiavel, de se servir de todos os processos, mesmo da mentira e da iniquidade, para arruinar e derrotar os seus adversários.

O Estado ou devia morrer ou alargar as suas fronteiras. Os estados fracos não tinham direito à existência. Por isso, os dirigentes deviam utilizar todos os processos: força material, argúcia, habilidade, hoje diríamos diplomacia, para se tornarem cada vez mais grandiosos.

Maquiavel fazia, pois, o louvor da guerra: «A única razão lógica que pode explicar uma guerra é enriquecer-se, empobrecendo o inimigo e nenhum outro motivo existe para procurar a vitória e fazer conquista. Enriquecerá com a vitória e a guerra, o príncipe ou a república que tiver aniquilado o inimigo e se apodere dos seus bens». «E quem quiser consegui-lo deve proceder como os romanos que faziam guerras curtas e enérgicas…». O seu método consistia, principalmente, em marchar contra o inimigo logo após a declaração de guerra e dar-lhe a batalha tão depressa quanto possível. Maquiavel ia mais longe ao afirmar: «Sob a pressão do interesse, todas as alianças se quebram… e embora o embuste seja condenável em todos os outros actos da vida, na guerra pode ser louvável e glorioso e, quem vence os seus inimigos com ardis e astúcia, é tão elogiado como aquele a quem a força das armas deu vitória. A maior desgraça de todas as situações a que um Estado pode ser levado é a de não poder aceitar a paz nem prosseguir na guerra… Um Estado que sabe avaliar as suas forças, nunca chegará a isso…

A sede de conquistar é coisa absolutamente natural e corrente, e, quem conquista tendo poder para o fazer, merece louvor e não censura. O que é errado e censurável é que alguém pretenda conquistar a todo o custo, sem ter forças para isso…».

Os condutores de povos são geralmente mitómanos dum ideal, urdindo com subtileza promessas redentoras aos seus povos, e estes só compreenderam a verdade dos factos à beira do abismo, quando resvalam, sangrenta e assustadoramente para a morte. Mitómanos patológicos chegam, talvez, a convencer-se de verdades inexistentes e, maior crime ainda, fanatizam os seus povos para os subverter nessas ideias. Se nestes homens não preponderasse uma mitomania constante, logo que vissem a sua causa perdida, deviam recuar e privar os seus povos de maiores crimes e atrocidades.

Os casos típicos de mitomania, como muito bem observa Battistelli (1), «são mutáveis no humor como os afectos; exagerados em tudo, no amor como no ódio, na alegria como na dor; dotados de uma grande actividade imaginativa e habituados a cavalgar sempre pelo reino do fabuloso e do absurdo; sonhadores pertinazes, e, por isso, sempre inquietos e descontentes com o seu Estado; apáticos e inertes na tranquila vida doméstica mas dotados, pelo contrário, de uma actividade espasmódica fora da sua casa… egoístas no mais elevado grau… mostram-se libertos de qualquer escrúpulo, de qualquer conveniência, e não mais perigosos».

A Europa encontra-se realmente apodrecida, deturpada por diferentes concepções e, a tal ponto, que Gandhi afirmou que dela se afastara o espírito de Deus, predominando apenas o de Satã. Embora as grandes nações europeias constituíssem uma enorme civilização aparentemente majestosa, a alma dos povos ia-se pervertendo e arruinando. Spengler marca-lhe o caminho condenatório e diz: «Europa, estás morta. Vejo em tuas faces as marcas evidentes da decadência. Tuas constituições, a tua democracia, a tua corrupção, as tuas cidades gigantescas, a tua ciência, a tua arte, o teu socialismo, o teu ateísmo, a tua filosofia… constituem os sinais característicos que observei na decadência das civilizações anteriores. Mais um século e a civilização mudará do continente europeu».

Mas se a civilização da Europa sucumbiu ante as devastações criminosas da guerra, estamos certos que a civilização futura irá procurar novos processos, alicerçar-se sob novas bases, elevar-se, desenvolver-se, atingir o zénite rutilante da grandeza, para, no fim, por qualquer processo e levada por quaisquer causas, ruir estrondosamente, enlamear as almas, sangrar os corações humanos… para não fugir à lei inflexível da história: a morte que jamais poupará homens e civilizações.

Não estará a humanidade farta destas contínuas reviravoltas, deste nascer e morrer de civilizações, deste nascer e morrer de pátrias? Qual o fim que nos leva à guerra? Salvaguardarmos a civilização? Que civilização, se a história jamais passa desta barbarização de costumes, destas exterioridades falsas, desta hipocrisia avassaladora e monstruosa?!

Se no mundo há falta de justiça, falta muito mais a sinceridade. A insinceridade e o terror caracterizam o homem presente e tudo parece que os altos desígnios da providência cortaram as suas relações com a terra. Falhamos em tudo: é falsa a política da maioria das nações; são falsas as relações sociais; é falsa a arte, e a literatura é um reflexo embaciado e triste da geração presente, pervertida e cansada.

Se combatermos por uma civilização e nos arrasarem as nossa cidades; se combatermos por uma civilização e nos matarem ignobilmente deixando as nossas mulheres e os nossos filhos no desamparo e na miséria; Senhores, nós não combatemos por uma alta civilização, por um ideal nobre, por uma concepção pura, mas revivemos, por novos processos, os bárbaros ideais que ensopam no sangue, vidas e vidas que por nenhum preço poderão ser resgatadas.

Assistimos ao momento mais trágico de toda a história: a queda da Europa. Vemos este velho continente afogado no martírio e dele, certamente, hão-de ressurgir novas civilizações! Essas civilizações morrerão, por fim, afogadas no sangue e no terror. E dir-se-á que assim como morrem os indivíduos, morrem as nacionalidades e envelhecem e sucumbem os continentes. Uma nova civilização despertará, com maior grandeza, para a vida: América. Mas não se esqueçam os americanos que a sua civilização tem o germe da europeia, e, quanto mais depressa atingir o ponto culminante, mais depressa estará condenada à morte. No decorrer dos séculos, há-de assistir à sua própria decadência, ensanguentar o seu solo e ver correr Amazonas e Mississípi de martírio no seu continente. Novas civilizações despertarão na Ásia e na África e um outro continente terá o mesmo trágico fim.

Oxalá esta guerra tivesse ensinado aos homens o bastante para preservar a humanidade, durante largos anos, porque é impossível por toda a vida, de novas catástrofes, de guerras sanguinárias e ferozes, que os continentes, adubados com o sangue de tantos inocentes, se libertem da esmagadora e tirânica opressão das lutas pérfidas e mesquinhas.

Por Joaquim Carlos

(Jornalista C.T. E. nº. 525)

(1) A Mentira – Arménio Amado – Coimbra, 1943, págs. 221-222.

O desvario consumista

SÁBADO passado, "Le Monde", considerado como um dos melhores diários do mundo, consagrava uma página a Portugal. Lembrando que o país passou em trinta anos “da pobreza ao sobreendividamento”, o jornal francês notava “a ausência de um plano global e coerente de desenvolvimento da economia, a promiscuidade entre pessoal político e chefes de empresa, a porosidade entre dinheiro público e interesses privados”.

"Le Monde" evocava a megalomania das auto-estradas. Mas poderia também, mais pertinentemente, ter frisado o desvario consumista para procurar explicar a crise actual. Ultra-consumismo que salta aos olhos de quem, vivendo no Centro-Norte da Europa, vem regularmente a Portugal desde o 25 de Abril. E que se nota logo à chegada ao aeroporto. Com homens e sobretudo mulheres trajados com os melhores requintes da moda e os inevitáveis adereços de marca caríssimos. Com montes de gente pendurada em telemóveis dos últimos modelos, em conversas espantosamente intermináveis.

Sai-se do aeroporto e o desfile de carros de grandes marcas é absolutamente assombroso. Chega-se a um comboio da linha do Norte ou da Beira Baixa e assiste-se ao incrível espectáculo exibicionista de Ipods e outros MP 3, de Iphones e Blackberrys, de computadores portáteis e, evidentemente, dos recentíssimos Ipads. Um verdadeiro desfraldar de vaidades, sem comparação alguma com a discreta modéstia que se vê na “capital da Europa”, por exemplo, num país de velha tradição industrial e com um nível de vida assaz superior.

Só que em Portugal, de há trinta anos a esta parte, assistiu-se a um total desvario consumista. Os portugueses passaram de uma sociedade pouco mais do que subdesenvolvida, onde os bens de consumo corrente eram restritos e os essenciais muitas vezes faltavam, para uma sociedade ultra-consumista que está aliás a destruir o tecido económico e social do país. Destruição patente nos centros das cidades, onde o comércio tradicional se encontra em vias de desaparecimento acelerado, com o que isso acarreta de desertificação urbana.

A ânsia consumista e a irreprimível vontade de ostentação fez também expandir uma conduta simples mas significativa : muita gente, de praticamente todos os meios sociais (com excepção dos excluídos do sistema e dos que nele reinam), deixou de tomar o pequeno almoço em casa e vai tomá-lo em pastelarias e cafés! Mas alguém pensa que nos países do Centro-Norte há tempo e dinheiro para fazer isso? A crise actual obrigará talvez os portugueses a um pouco mais de bom senso…

J.-M. Nobre-Correia

2.29.2012

Em situações de crise o Instituto do Sangue vai pedir a padres para apelar à dádiva nas missas

Dadores de sangue perderam a isenção do pagamento das taxas moderadoras nos hospitais

Por (Nuno Ferreira Santos).

Assim que haja sinais de quebra das reservas de sangue do país, o Instituto Português do Sangue e da Transplantação (IPST) vai passar a mandar SMS para os dadores, a ligar pessoalmente a dadores cujos grupos sanguíneos estejam em falta e a envolver os padres para que façam apelos à dádiva nas missas, disse aos jornalistas o presidente deste organismo público, Hélder Trindade.

Estas são algumas das medidas previstas por este organismo público, depois de em Janeiro deste ano se ter assistido a uma diminuição de 16% do nível de dádivas de sangue face ao último mês do ano passado.

O responsável foi chamado hoje à comissão parlamentar de saúde pelo Bloco de Esquerda para debater “a situação actual das reservas de sangue e as razões para a sua quebra acentuada, bem como as medidas necessárias para repor os seus níveis habituais e evitar a repetição de situações como a actual”.

A quebra foi de cerca de três mil dádivas em Janeiro: o instituto colheu pouco mais de 16 mil unidades de sangue contra 19 mil no mesmo mês do ano anterior. Uma quebra de quase 16%, portanto. Os números de Fevereiro ainda não são conhecidos mas o responsável admite que se vive uma situação “de limites de alerta. Não estou confortável com as reservas mas não estamos em situação de ruptura”. Para isso, o médico enunciou uma série de medidas que estão agendadas. Já em Março vão fazer recolha junto da população universitária. “Espero sair da fase de crise em Março”.

Em situação de carência, vão passar a mandar SMS para os dadores e a ligar pessoalmente para dadores cujos grupos sanguíneos estejam em falta. O director falou também dos contactos havidos com o Patriarcado e a Pastoral da Saúde para, que, em situações de maior carência de sangue, os padres façam apelos à dádiva nas missas. Vão também passar a juntar às brigadas do Centro Nacional de Dadores de Células de Medula Óssea a recolha de sangue. “Temos que passar a mensagem de que não se faz um transplante de medula sem muitas transfusões de sangue”.

Mas durante mais de duas horas, Hélder Trindade tentou responder à pergunta na boca de quase todos os deputados: a que se deveu tamanha quebra nas dádivas. O deputado bloquista João Semedo lançou logo à partida uma das explicações que mais tem estado em cima da mesa: o fim da isenção das taxas moderadoras para os dadores de sangue nos cuidados hospitalares (nos centros de saúde mantém-se a isenção). “Concorda com o fim da isenção?”.

O responsável não nega que “a retaliação” contra esta medida poderá ter sido um dos factores que pesou na baixa, mas escusou-se a comentá-la por ser “uma decisão política que ultrapassa o IPS”. O responsável afirma que os níveis altos gripe podem ter sido outros dos factores que afastou os dadores da dádiva durante o primeiro mês do ano.

Hélder Trindade notou também que houve um acréscimo do consumo de sangue este ano, em contraste com o que estava a acontecer no ano passado, em que tinha havido uma redução de dádivas (menos 6%) mas também de necessidades, por haver cada vez cirurgias menos invasivas e, por isso, a precisar de menos sangue, explicou.

Na sua intervenção, Hélder Trindade sublinhou que esta é uma área em que “é precisa serenidade” e que as notícias que têm saído sobre o sector não têm ajudado. Referia-se concretamente a uma notícia do PÚBLICO, que em 6 de Fevereiro, deu conta do desperdício actual de um dos componentes do sangue, o plasma, na maioria das colheitas feitas, uma situação que confirmou na comissão. O director do IPST admitiu: “vamos ter que abrir um concurso para fraccionar o plasma [que não é usado]”, mas não avançou com datas. Este concurso está em cima da mesa pelo menos desde o ano passado.

O director do IPST disse não haver respostas definitivas para as razões este decréscimo mas disse que “estamos a viver uma situação excepcional”. Hélder Trindade admitiu que as brigadas de recolha de sangue tiveram que passar a ser melhor rentabilizadas, evitando deslocações das brigadas móveis quando estão em causa muito poucos dadores. A deputada comunista Paula Santos perguntou se não se está desta forma “a reduzir as hipóteses de dádiva”.

Fonte: Jornal “Público”

29.02.2012 - 16:10 Por Catarina Gomes