3.04.2012

Época de descontentamentos

Na época actual uma onda de nervosismo avassala a consciência de todos os povos e até de todos os indivíduos. A vida presente, cheia de descontentamentos, de ansiedades, de desvairadas manifestações e orgias, perturbada por contínuas mudanças, oferece o terreno apropriado para o desenvolvimento das vontades paranóicas e loucas.

Assim como há artistas, poetas, escultores, etc., que julgam ter editado a última palavra do saber humano, também os há que se julgam predestinados por Deus ou indicados pelo «inexcedível» valor pessoal para desempenhar um grande papel, um caminho salvador junto do seu povo e dos seus semelhantes. E, então, todo o tempo é pouco para falar de si, dos seus êxitos, das suas reformas, da sua administração e, em discursos inflamados e, atitudes arrogantes, indicam um «luminoso campo de prosperidades e grandezas.

O paranóico ambicioso não luta mais pelo engrandecimento do seu povo do que pela exteriorização dos seus sentimentos, das suas vaidades. O seu vestuário denotará imponência; os seus gestos serão bruscos e arrebatados; a sua palavra, fácil e cativante. Prometerá o que não tem nem pode dar e arrastará as multidões para onde muito bem lhe aprouver. Esquece muitas vezes os que, na sombra, quase no esquecimento, revolucionaram os processos científicos, sempre humildes, sempre afastados da sociedade. Estes, sim, que são os grandes obreiros da humanidade. Que tudo dão e nada esperam, sacrificando a vida inteira em proveito dos seus semelhantes.

O paranóico político é um exaltado, exagerando palavras e actos. O homem de ciência é calmo e reflectido, auscultando tudo com paciência, vivendo continuamente recolhido, sentindo-se pouco à vontade em frente dos seus semelhantes, não gostando de cortesias nem de manifestações. O político, pelo contrário, sente-se bem apenas no meio de aplausos vibrantes, no delírio das turbas inconscientes e sugestionáveis. O maior perigo do paranóico político está em arrastar o seu povo para a guerra, considerando-a quase sempre um fim legítimo, para satisfazer a sua ambição e realizações desmedidas.

Quando Mussolini prefaciou o Príncipe de Maquiavel, mostrou bem perfilhar a ideologia deste pensador. Maquiavel foi o incentivo das aspirações desmedidas da política dos grandes Estados. Estes, aconselhava ele a Lourenço de Médicis, têm o direito de se tornarem grandes e poderosos, atingindo os seus fins sem olhar aos meios. Todo o homem deve ser, simultaneamente, homem e raposa; homem para medir o perigo, evitando-o, e raposa para escapar aos laços e ratoeiras humanas. Enquanto os demais Estados se iam unificando e tornando vigorosos, a Itália encontrava-se, nessa altura, fragmentada por contínuas lutas intestinas que lhe ensombravam, a sua capacidade de realização. E, então, toda a população da Itália se agrupa em volta das cinco cidades importantes: as repúblicas de Veneza, Florença, o reino de Nápoles, o ducado de Milão e o território da Igreja de Roma.

Maquiavel pôs de parte todas s instituições existentes, rompeu com a palavra eterna do Evangelho, os princípios do direito e até da justiça e tornou-se o primeiro político que encarou o problema das nações pelo lado prático e utilitarista. Considerou o Estado superior aos indivíduos e para que as suas doutrinas não suscitassem escândalo, teve o cuidado de separar a política da mora. Todos os processos seriam legítimos se contribuíssem para o engrandecimento do Estado e a própria religião passaria a ser um instrumento político. O governante teria, segundo os princípios de Maquiavel, de se servir de todos os processos, mesmo da mentira e da iniquidade, para arruinar e derrotar os seus adversários.

O Estado ou devia morrer ou alargar as suas fronteiras. Os estados fracos não tinham direito à existência. Por isso, os dirigentes deviam utilizar todos os processos: força material, argúcia, habilidade, hoje diríamos diplomacia, para se tornarem cada vez mais grandiosos.

Maquiavel fazia, pois, o louvor da guerra: «A única razão lógica que pode explicar uma guerra é enriquecer-se, empobrecendo o inimigo e nenhum outro motivo existe para procurar a vitória e fazer conquista. Enriquecerá com a vitória e a guerra, o príncipe ou a república que tiver aniquilado o inimigo e se apodere dos seus bens». «E quem quiser consegui-lo deve proceder como os romanos que faziam guerras curtas e enérgicas…». O seu método consistia, principalmente, em marchar contra o inimigo logo após a declaração de guerra e dar-lhe a batalha tão depressa quanto possível. Maquiavel ia mais longe ao afirmar: «Sob a pressão do interesse, todas as alianças se quebram… e embora o embuste seja condenável em todos os outros actos da vida, na guerra pode ser louvável e glorioso e, quem vence os seus inimigos com ardis e astúcia, é tão elogiado como aquele a quem a força das armas deu vitória. A maior desgraça de todas as situações a que um Estado pode ser levado é a de não poder aceitar a paz nem prosseguir na guerra… Um Estado que sabe avaliar as suas forças, nunca chegará a isso…

A sede de conquistar é coisa absolutamente natural e corrente, e, quem conquista tendo poder para o fazer, merece louvor e não censura. O que é errado e censurável é que alguém pretenda conquistar a todo o custo, sem ter forças para isso…».

Os condutores de povos são geralmente mitómanos dum ideal, urdindo com subtileza promessas redentoras aos seus povos, e estes só compreenderam a verdade dos factos à beira do abismo, quando resvalam, sangrenta e assustadoramente para a morte. Mitómanos patológicos chegam, talvez, a convencer-se de verdades inexistentes e, maior crime ainda, fanatizam os seus povos para os subverter nessas ideias. Se nestes homens não preponderasse uma mitomania constante, logo que vissem a sua causa perdida, deviam recuar e privar os seus povos de maiores crimes e atrocidades.

Os casos típicos de mitomania, como muito bem observa Battistelli (1), «são mutáveis no humor como os afectos; exagerados em tudo, no amor como no ódio, na alegria como na dor; dotados de uma grande actividade imaginativa e habituados a cavalgar sempre pelo reino do fabuloso e do absurdo; sonhadores pertinazes, e, por isso, sempre inquietos e descontentes com o seu Estado; apáticos e inertes na tranquila vida doméstica mas dotados, pelo contrário, de uma actividade espasmódica fora da sua casa… egoístas no mais elevado grau… mostram-se libertos de qualquer escrúpulo, de qualquer conveniência, e não mais perigosos».

A Europa encontra-se realmente apodrecida, deturpada por diferentes concepções e, a tal ponto, que Gandhi afirmou que dela se afastara o espírito de Deus, predominando apenas o de Satã. Embora as grandes nações europeias constituíssem uma enorme civilização aparentemente majestosa, a alma dos povos ia-se pervertendo e arruinando. Spengler marca-lhe o caminho condenatório e diz: «Europa, estás morta. Vejo em tuas faces as marcas evidentes da decadência. Tuas constituições, a tua democracia, a tua corrupção, as tuas cidades gigantescas, a tua ciência, a tua arte, o teu socialismo, o teu ateísmo, a tua filosofia… constituem os sinais característicos que observei na decadência das civilizações anteriores. Mais um século e a civilização mudará do continente europeu».

Mas se a civilização da Europa sucumbiu ante as devastações criminosas da guerra, estamos certos que a civilização futura irá procurar novos processos, alicerçar-se sob novas bases, elevar-se, desenvolver-se, atingir o zénite rutilante da grandeza, para, no fim, por qualquer processo e levada por quaisquer causas, ruir estrondosamente, enlamear as almas, sangrar os corações humanos… para não fugir à lei inflexível da história: a morte que jamais poupará homens e civilizações.

Não estará a humanidade farta destas contínuas reviravoltas, deste nascer e morrer de civilizações, deste nascer e morrer de pátrias? Qual o fim que nos leva à guerra? Salvaguardarmos a civilização? Que civilização, se a história jamais passa desta barbarização de costumes, destas exterioridades falsas, desta hipocrisia avassaladora e monstruosa?!

Se no mundo há falta de justiça, falta muito mais a sinceridade. A insinceridade e o terror caracterizam o homem presente e tudo parece que os altos desígnios da providência cortaram as suas relações com a terra. Falhamos em tudo: é falsa a política da maioria das nações; são falsas as relações sociais; é falsa a arte, e a literatura é um reflexo embaciado e triste da geração presente, pervertida e cansada.

Se combatermos por uma civilização e nos arrasarem as nossa cidades; se combatermos por uma civilização e nos matarem ignobilmente deixando as nossas mulheres e os nossos filhos no desamparo e na miséria; Senhores, nós não combatemos por uma alta civilização, por um ideal nobre, por uma concepção pura, mas revivemos, por novos processos, os bárbaros ideais que ensopam no sangue, vidas e vidas que por nenhum preço poderão ser resgatadas.

Assistimos ao momento mais trágico de toda a história: a queda da Europa. Vemos este velho continente afogado no martírio e dele, certamente, hão-de ressurgir novas civilizações! Essas civilizações morrerão, por fim, afogadas no sangue e no terror. E dir-se-á que assim como morrem os indivíduos, morrem as nacionalidades e envelhecem e sucumbem os continentes. Uma nova civilização despertará, com maior grandeza, para a vida: América. Mas não se esqueçam os americanos que a sua civilização tem o germe da europeia, e, quanto mais depressa atingir o ponto culminante, mais depressa estará condenada à morte. No decorrer dos séculos, há-de assistir à sua própria decadência, ensanguentar o seu solo e ver correr Amazonas e Mississípi de martírio no seu continente. Novas civilizações despertarão na Ásia e na África e um outro continente terá o mesmo trágico fim.

Oxalá esta guerra tivesse ensinado aos homens o bastante para preservar a humanidade, durante largos anos, porque é impossível por toda a vida, de novas catástrofes, de guerras sanguinárias e ferozes, que os continentes, adubados com o sangue de tantos inocentes, se libertem da esmagadora e tirânica opressão das lutas pérfidas e mesquinhas.

Por Joaquim Carlos

(Jornalista C.T. E. nº. 525)

(1) A Mentira – Arménio Amado – Coimbra, 1943, págs. 221-222.

O desvario consumista

SÁBADO passado, "Le Monde", considerado como um dos melhores diários do mundo, consagrava uma página a Portugal. Lembrando que o país passou em trinta anos “da pobreza ao sobreendividamento”, o jornal francês notava “a ausência de um plano global e coerente de desenvolvimento da economia, a promiscuidade entre pessoal político e chefes de empresa, a porosidade entre dinheiro público e interesses privados”.

"Le Monde" evocava a megalomania das auto-estradas. Mas poderia também, mais pertinentemente, ter frisado o desvario consumista para procurar explicar a crise actual. Ultra-consumismo que salta aos olhos de quem, vivendo no Centro-Norte da Europa, vem regularmente a Portugal desde o 25 de Abril. E que se nota logo à chegada ao aeroporto. Com homens e sobretudo mulheres trajados com os melhores requintes da moda e os inevitáveis adereços de marca caríssimos. Com montes de gente pendurada em telemóveis dos últimos modelos, em conversas espantosamente intermináveis.

Sai-se do aeroporto e o desfile de carros de grandes marcas é absolutamente assombroso. Chega-se a um comboio da linha do Norte ou da Beira Baixa e assiste-se ao incrível espectáculo exibicionista de Ipods e outros MP 3, de Iphones e Blackberrys, de computadores portáteis e, evidentemente, dos recentíssimos Ipads. Um verdadeiro desfraldar de vaidades, sem comparação alguma com a discreta modéstia que se vê na “capital da Europa”, por exemplo, num país de velha tradição industrial e com um nível de vida assaz superior.

Só que em Portugal, de há trinta anos a esta parte, assistiu-se a um total desvario consumista. Os portugueses passaram de uma sociedade pouco mais do que subdesenvolvida, onde os bens de consumo corrente eram restritos e os essenciais muitas vezes faltavam, para uma sociedade ultra-consumista que está aliás a destruir o tecido económico e social do país. Destruição patente nos centros das cidades, onde o comércio tradicional se encontra em vias de desaparecimento acelerado, com o que isso acarreta de desertificação urbana.

A ânsia consumista e a irreprimível vontade de ostentação fez também expandir uma conduta simples mas significativa : muita gente, de praticamente todos os meios sociais (com excepção dos excluídos do sistema e dos que nele reinam), deixou de tomar o pequeno almoço em casa e vai tomá-lo em pastelarias e cafés! Mas alguém pensa que nos países do Centro-Norte há tempo e dinheiro para fazer isso? A crise actual obrigará talvez os portugueses a um pouco mais de bom senso…

J.-M. Nobre-Correia

2.29.2012

Em situações de crise o Instituto do Sangue vai pedir a padres para apelar à dádiva nas missas

Dadores de sangue perderam a isenção do pagamento das taxas moderadoras nos hospitais

Por (Nuno Ferreira Santos).

Assim que haja sinais de quebra das reservas de sangue do país, o Instituto Português do Sangue e da Transplantação (IPST) vai passar a mandar SMS para os dadores, a ligar pessoalmente a dadores cujos grupos sanguíneos estejam em falta e a envolver os padres para que façam apelos à dádiva nas missas, disse aos jornalistas o presidente deste organismo público, Hélder Trindade.

Estas são algumas das medidas previstas por este organismo público, depois de em Janeiro deste ano se ter assistido a uma diminuição de 16% do nível de dádivas de sangue face ao último mês do ano passado.

O responsável foi chamado hoje à comissão parlamentar de saúde pelo Bloco de Esquerda para debater “a situação actual das reservas de sangue e as razões para a sua quebra acentuada, bem como as medidas necessárias para repor os seus níveis habituais e evitar a repetição de situações como a actual”.

A quebra foi de cerca de três mil dádivas em Janeiro: o instituto colheu pouco mais de 16 mil unidades de sangue contra 19 mil no mesmo mês do ano anterior. Uma quebra de quase 16%, portanto. Os números de Fevereiro ainda não são conhecidos mas o responsável admite que se vive uma situação “de limites de alerta. Não estou confortável com as reservas mas não estamos em situação de ruptura”. Para isso, o médico enunciou uma série de medidas que estão agendadas. Já em Março vão fazer recolha junto da população universitária. “Espero sair da fase de crise em Março”.

Em situação de carência, vão passar a mandar SMS para os dadores e a ligar pessoalmente para dadores cujos grupos sanguíneos estejam em falta. O director falou também dos contactos havidos com o Patriarcado e a Pastoral da Saúde para, que, em situações de maior carência de sangue, os padres façam apelos à dádiva nas missas. Vão também passar a juntar às brigadas do Centro Nacional de Dadores de Células de Medula Óssea a recolha de sangue. “Temos que passar a mensagem de que não se faz um transplante de medula sem muitas transfusões de sangue”.

Mas durante mais de duas horas, Hélder Trindade tentou responder à pergunta na boca de quase todos os deputados: a que se deveu tamanha quebra nas dádivas. O deputado bloquista João Semedo lançou logo à partida uma das explicações que mais tem estado em cima da mesa: o fim da isenção das taxas moderadoras para os dadores de sangue nos cuidados hospitalares (nos centros de saúde mantém-se a isenção). “Concorda com o fim da isenção?”.

O responsável não nega que “a retaliação” contra esta medida poderá ter sido um dos factores que pesou na baixa, mas escusou-se a comentá-la por ser “uma decisão política que ultrapassa o IPS”. O responsável afirma que os níveis altos gripe podem ter sido outros dos factores que afastou os dadores da dádiva durante o primeiro mês do ano.

Hélder Trindade notou também que houve um acréscimo do consumo de sangue este ano, em contraste com o que estava a acontecer no ano passado, em que tinha havido uma redução de dádivas (menos 6%) mas também de necessidades, por haver cada vez cirurgias menos invasivas e, por isso, a precisar de menos sangue, explicou.

Na sua intervenção, Hélder Trindade sublinhou que esta é uma área em que “é precisa serenidade” e que as notícias que têm saído sobre o sector não têm ajudado. Referia-se concretamente a uma notícia do PÚBLICO, que em 6 de Fevereiro, deu conta do desperdício actual de um dos componentes do sangue, o plasma, na maioria das colheitas feitas, uma situação que confirmou na comissão. O director do IPST admitiu: “vamos ter que abrir um concurso para fraccionar o plasma [que não é usado]”, mas não avançou com datas. Este concurso está em cima da mesa pelo menos desde o ano passado.

O director do IPST disse não haver respostas definitivas para as razões este decréscimo mas disse que “estamos a viver uma situação excepcional”. Hélder Trindade admitiu que as brigadas de recolha de sangue tiveram que passar a ser melhor rentabilizadas, evitando deslocações das brigadas móveis quando estão em causa muito poucos dadores. A deputada comunista Paula Santos perguntou se não se está desta forma “a reduzir as hipóteses de dádiva”.

Fonte: Jornal “Público”

29.02.2012 - 16:10 Por Catarina Gomes

2.27.2012

Conceito Social dos Boateiros e Caluniadores

Conceito Social dos Boateiros e Caluniadores

As fantasias, os boatos, a maledicência, as mentiras e calúnias enchem as horas vazias de grande parte da humanidade, que goza profunda e voluntariamente com o "ouve-aqui, conta-acolá", que constitui o arcaboiço do boato e da calúnia assassina.
O boato é a alma das ruas, o segredo dos vadios, a delícia das más-línguas. Nasce de uma suspeita que se baseia em um facto qualquer, aumenta, progride, propaga-se, como a labareda em mato seco e, pela sugestibilidade humana, tendente à maledicência, em poucos dias empolga a população inteira de uma grande cidade, para posteriormente confirmar-se, mas habitualmente, infirmar-se, e morrer no anonimato das lufadas daninhas.
A calúnia é habitualmente a tara dos boatos, vive por causa da perversidade de certos homens que a criam e dela se sustentam, para repasto das suas tendências maléficas e envenenadoras.
A fantasia é inocente, a mentira brota de um facto mínimo que lhe forma o ponto inicial, mas que a imaginação aumenta, hipertrofia, borda, exagera, com elementos lógicos, a fim de parecer verdade.
No livro "Os Pequenos Males" retrata bem a Doença da Mentira, como a mais vulgar das leves psicopatias. Na calúnia não há ponto verídico, tudo é criado, preparado, fundido com o metal inferior dos sentimentos perversos. Origina-se do ódio, ou das almas danadas, que formam grande lastro dos humanos. O gozo dos caluniadores é a resultante do ciúme, da vingança de raivas latentes e despeito inconfessáveis. O caluniador vive a macular reputações, a sorver os vapores deletérios que surgem da propagação das suas malévolas inzonices, e quantos, profundamente miseráveis e canalhas se vendem para tão baixo mister, ora acobertando-se em anonimato da imprensa, ora sussurrando em ouvidos adrede preparados para as baixíssimas insinuações aleivosas ou fraudulentas de reputações.
A mentira mancha o carácter, a calúnia fere o almejado, o boato espalha-se como o cancro, e ás vezes nódoa de lama ou de sangue a vítima das aleivosias.
A psicologia do fantasista, boateiro, mentiroso e caluniador, obedece à graduação descendente das fraquezas humanas as baixezas do carácter.
Caluniar é vingar-se soezmente, pois a calúnia exala éteres embriagantes e malignos e que fazem bem á alma desgraçada dos maculadores de nomes e de honras alheias. A calúnia é uma arma acerrada que retalha traiçoeiramente, infecciona, mas felizmente em regra não mata a vítima, mas, esmaga-lhe a dignidade. "A calúnia. Senhor, não sabeis o que desdenhais, crede que não há parvoa maldade, horrores, notícias absurdas que não sejam adoptadas pelos desocupados de uma grande cidade... a principio um murmúrio leve aplainando o solo como a andorinha antes da tempestade... tal boca recolhe-a, e "piano, piano", resvala directamente para a orelha, o mal fez-se, germina, sobe, caminha, e em "rinforzando" de boca em boca, diabo segue, depois de repente, não se sabe como a calúnia se endireita, arrasta, arranca, brilha e troveja, e torna-se em grito geral, um "crescendo" público, um coro universal de ódio e de proscrição..." "Beaumarchais" (Barbeiro de Sevilha).
"Os Romanos antigos, que muitas vezes usavam a letra K em lugar de C, imprimiam com ferro em brasa na testa do homem convicto da calúnia, um ou dois Kapas, como quem diz por abreviatura "Calúnia Causa" ou "Cave calumnosum". E referem esta pena a lei aonde também manda marcar ao ladrão com Memnia, ou (como outros dizem) Rhemmnia, um L: o caluniador, que é ladrão de honra, e fama, porque se não havia de marcar com um C afrontoso?
"Os turcos tem uma lei de Mafoma em que se termina que o convicto da calúnia, vá pelas ruas públicas nu, e enfuscado o rosto com tinta ou ferrugem, cavalheiro sobe um jumento, com a cara voltada para as ancas e a cauda dele na mão, em lugar de rédeas, e por capa de couro podre de cavalo ou boi, a rapaziada atrás dele atirando-lhe com imundices e dizendo-lhe afrontas".
Hoje é o contrário. Os caluniadores levam vida folgada, e como conspurcadores de honras, logrão as miserabilíssimas invencionices pelo gozo diabólico de fazer mal e com este fruírem os prazeres venenosos dos aleives.
A alma é assim, precisa de tais estímulos para viver nas grandes cidades, nas ruas, nos salões, nas colmeias humanas, que muita vez fabricam o mel das intrigas, felonias, perjurias, para a embriaguez dos boateiros e dos maledicentes...
A calúnia e o boato são toadas e árias maviosíssimas para os ouvidos urbanos, cujos donos os recebem, transformam, aumentam, e transmitem sucessivamente de tímpano a tímpano, gostosamente, voluptuosamente em cochichos blandiciosos, em palestra familiares ou em escritos infamantes.
Talvez as cidades fossem cemitérios insulsos se desaparecessem as fantasias, os boatos, as mentiras e calúnias dos lábios ou das penas humanas...

Por Joaquim Carlos
(Jornalista C.T.E nº. 525)

Conceito Social dos Bajuladores

Por Joaquim Carlos *

Na luta da vida o homem prepara as armas morais que lhe são convenientes para a vitória, ou para a resistência. Uns são activos, arrogantes, lutadores, outros, passivos, tímidos, geniosos, não gastam esforços para o bom êxito na vida. Os bajuladores acham-se entre os segundos, porque com a adulação entre os segundos, porque com a adulação, acariciam o mérito de alguém para daí tirar proveitos e interesses mediatos ou imediatos.

Na existência uns nasceram para mandar, outros para serem mandados, e os que usam da lisonja com baixeza são obedientes, turiferarios, ladinos, em suma, para empregar o brasileirismo corrente, engrossadores. Na política, nas repartições públicas, nos corpos armados, no jornalismo, na vida comum há indivíduos que se humilham instintivamente para gozar vantagens mais ou menos claras, ou ocultas.

Rodolfo Teófilo, em livro muito interessante, “memorias de um engrossador”, traça com singeleza e carinho o perfil do lisonjeiro escorregadiço e profissional.

“A parte mais difícil da arte de engrossar, como chamarei ao modo de bem viver em todos os meios, é escolher o momento psicológico de queimar incenso ao ídolo”.

É assim. O jeito, a graça do bajulante estão na oportunidade de adular para locupletar-se com o que deseja ou ambiciona.

A lisonja é a bajulação mais fina, apresenta doçura e arte, graça e algo de subtil e artístico. Às vezes mistura-se com a ironia e em muita ocasião se torna difícil separar as duas. A bajulação é pesada, aberta, sistemática e ostensiva.

O engressador demonstra-se pelos gestos subservientes e elogios incondicionais e absolutos. As côrtes foram as latas escolas dos aduladores e do servilismo clássico.

Há na bajulação fenómenos psicológicos de defesa: o indivíduo não tem capacidade e força para lutar, em consequência, apega-se às armas dos louvores incondicionais, e com a docilidade escravizadora visa os proventos que lhe acariciam a alma cúpida e deslavada.

A subserviência abissínia de muitos políticos traceja a clássica forma dos aduladores. No mandante, ou caudilho descobrem-se talentos, sagacias finuras políticas raras e glorificadoras. E quanto mais maltratados, mais dobram a cervix, os asséclas e os engrossadores, porque só assim conseguem desejos e vinganças, posições e privilégios, sobretudo as simpatias electivas do dirigente.

Creio que o verbo mais querido da maior parte dos políticos do mundo inteiro é engrossar. Os exemplos clássicos da História, ao tempo de Roma ou mesmo na época moderna, podem ser citados a título de curiosidade. Os louvores a César, Nero, Calígula, os miseráveis bajuladores do tempo da Inquisição, as intrigas e adulações da época de Luís XIV, Luís XV, enfim todo o resumo da vida das cortes demonstram a caudal crescente, suave e melosa dos aduladores cortesãos de raça, de fina ou baixa escola.

A bajulação é uma arma de luta biológica e sociológica. A natureza ensina às espécies fracos processos de defesa entre eles o mimetismo, ou imitação, o homocromismo, ou semelhança de cores, para livrarem-se dos inimigos, o comensalismo, a simbiose, o parasitismo etc. O bajulador copia instintivamente dos métodos naturais os que lhe parecem mais fáceis e que despendem menos esforço para vencer.

Carneiros de Panurgo formam o exército de lisonjeiros e dos engrossadores e o amor à conquista por meio da bajulação soez tem feito muita fortuna moral, muita riqueza pingue entre os sequazes dos políticões.

O bajulador é um sabidoiro. Lucra sempre e só se humilha para visar vantagens. Às vezes sai logrado, porque os ademanes coleantes, os elogios fartos e as excessivas loas, acabam muita vez enojando o ídolo.

Os bajuladores possuem armas auxiliares tais como: intrigas, mentira, hipocrisia, falas solicitude e as lágrimas de crocodilo.

O louvaminheiro venal é às vezes um artista, pois conhece o ponto fraco do ídolo, a corda sensível dos governantes, a tecla sonora dos proveitos. Macio, escravo, paciente, tudo suporta para conseguir a mira dos desejos, e a colheita das suas artimanhas. Depois comete ingratidões ou não, isto é secundário, o principal é conseguir, por qualquer meio, contando que logre vantagens.

A falsa humildade dele para os grandes, muita vez oculta a arrogância para os pequenos, a vingança para os indefesos, e a trapaça para os inocentes.

O bajulador é um vitorioso original, embora o triunfo lhe seja de misérias e hipocrisias.

*(Jornalista C.T.E. nº. 525)

Conceito Social dos Hipócritas

A hipocrisia é apanágio da simulação denuncia-se pelo vício de carácter que apresenta o indivíduo em afectar a piedade, virtude, nobreza de sentimentos que não possui. O hipócrita concentra na alma a dissimulação, o fingimento, a mentira, enfim todos os elementos que lhe mascaram o carácter. Enganar pela aparência é-lhe a súmula moral: ser e não parecer, o lema da vida.

As condições essenciais da fisionomia moral do hipócrita são a doçura, gentileza, os exageros, a aparência, a timidez, a vaidade e sobretudo o alto senso de enganar, torna-se por isto sempre "um homem vil, tímido e dramático e, no exercício da falsidade, vai-se fazendo sempre mais esperto, mais hábil, porque vive, sempre na falsidade e acaba por não saber distinguir o que na verdade sente e o que finge sentir" (Mantegazza).
Simular, mostra-se-lhe a arma predilecta. Há hipócritas em matéria de sentimentos, de amor, honradez, de política, religião, e intriguistas e jeitosos, captam confiança e simpatia da família, dos amigos, dos asseclas, e passam às vezes a existência inteira a ocultar o carácter caviloso e ladino, propenso ao mal, reduto de egoísmos inconfessáveis e obscuros.

O retrato clássico deste estado patológico da alma, patológico sim, porque a alma deve ser feita de límpido cristal, está no Tartufo de Molière. Jamais a pena humana traçou com vida e fidelidade o bosquejo, a figura do simulador malevolente, do jacobeu, santião e carola.

Poucas vezes o teatro do mundo inteiro apresentou figuras mais bem debuxadas do que a do impostor de Molière, e no gesto caricatural da figura, assistimos à expressão psicológica perfeita do hipócrita.

O hipócrita nasce com os seus estigmas essenciais. Desde menino cultiva a mentira, a bajulação, a timidez, as queixas dos irmãos e companheiros, a desconfiança e a maldade desenfreada. Cresce amado, idolatrado de muitos, porém, já odiado das suas vítimas de intrigas e mentiras.

As qualidades no adulto se apuram para o mal. Com a posição inclinada da face, a seriedade santarrona, o olhar velado, talvez aquele de "cigana obliquo e simulado de Capitú", do delicioso livro de Machado de Assis, D. Casmurro, olhos que se não fitam em ninguém, gestos moderados, circunspecção dosada, beatice falsificada, o hipócrita quer enganar a todo o transe o ambiente em que vive, o meio humano que o cerca. E consegue! Porque as artimanhas, as atitudes morais estudadas, as posturas e os gestos, dão-lhe o apuro de arte, como se estivesse sempre a representar diante do público para conseguir êxito feliz e aplausos.

Afirma Mantegazza que a mulher é a mestra consumada da hipocrisia, a senhora do mundo oculto, cabalístico, dramático de tais maquinações sentimentais. É ela que nos engana chorando e sorrindo, com a carícia felina e com os arroubos violentos de desvairados egoísmos.

O mundo de hipócritas é maior do que parece à primeira vista. O epigrama do clássico Guerreiro tratando da Multidão da hipocrisia diz que: "A hipocrisia tem, Uma grande latidão; A mil estados convém, Os hipócritas, porém, De letras mais, que outros são".

É assim, quantos passam na vida por justos, santarrões, honestos, e são ocultos patifes, camafonges de almas, vivem com sorrisos incompletos, atitudes de falsa piedade, sofredores artificiais, a iludir os compares, o círculo dos amigos, a atmosfera familiar!
A astúcia e a simulação são artes de viver. Muitos hipócritas perdem a mascara cedo, outros a conservam com a habilidade cuidadosa de enganadores profissionais. Há tanta complexidade patológica na alma do hipócrita, que o analista paciente esgotaria talvez longas horas de estudos para dissecar fibra a fibra, dobra a dobra, a psique dos Tartufos.
A alma do Hipócrita é de si um poço à superfície da face, no sorriso franco e no olhar claro e sereno, como a serpente à espera do momento certo para arrebatar a sua vítima. O mundo está minado destes seres altamente perspicazes e hábeis no engano.

Por Joaquim Carlos

(Jornalista C.T.E. nº. 525)