11.26.2010

EDIÇÃO Nº. 1 DA REVISTA TRIBUNA DA ADASCA



EDITORIAL

SOLIDARIEDADE E DEMOCRACIA

Por Joaquim M. C. Carlos *

Andam de braço dado, poderia dizer-se, a solidariedade e a democracia. Se bem que o não sejam, na sua expressão fundamental e na prática, totalmente coincidentes.
Concretamente, a solidariedade implica, por caracterização intrínseca, a reciprocidade de direitos e deveres em plena fluidez da comunicabilidade. A democracia, implicando a igualdade de direitos e deveres dos cidadãos, impõe-lhes a subordinação da decisão política á vontade das maiorias.
Na solidariedade fluem as leis naturais e recíprocos deveres. Na democracia imperam as leis de jurisprudência criada pelo homem e aprovada pelas maiorias, com as condicionantes que lhe retiram o valor universal.
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DEVERES E HAVERES

Direitos do homem. Direitos da mulher. Direitos da criança. Direitos dos animais. Direitos dos trabalhadores. Direitos dos estudantes. Direitos dos jovens. Direitos dos filhos. Direitos dos idosos. Direitos dos pais. Direitos dos professores. Direitos, direitos, direitos... Direito à saúde. Direito à informação. Direito à habitação. Direito ao trabalho. Direito à liberdade de expressão. Direito a férias. Direito à instrução. Direito à vida. Direito a isto, direito àquilo, direito aqueloutro...
E deveres? Talvez aqui a chave da aflição dos nossos tempos: nós, todos nós, temos direitos, todos os direitos. E não nenhuns deveres. (Lourenço de Almeida).
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A solidariedade é um sentimento e modo de estar da convivência humana. A democracia é um sistema político para convivência humana. É neste ponto fulcral que se encontram e divergem os princípios naturais e as bases ditadas que enformam as condutas de humanas e desumanas.
Na realidade, o princípio da igualdade de direitos e deveres das pessoas em sociedade, que baseia a "igualdade de oportunidades à partida", permite desde então a divergência de resultantes e não anuncia sequer a continuidade dessa oportunidade - pois ela cessa pontualmente à partida - nem exige tão-pouco por princípio de relacionamento a reciprocidade que em solidariedade é estabelecida entre os mais e os menos dotados.
Se a tais factos adicionarmos o da heterogeneidade da sociedade, em termos de condições das pessoas, é facilmente conclusivo que a lei, divergindo da fluência espontânea do direito natural, pode conduzir às situações atrás referidas conforme o "status" dos estratos ou grupos sociais sobre que incide.
Por isso que, mesmo em democracia como sistema político até hoje posto em prática com a esperança teórica de melhor cumprir o princípio da igualdade entre os seres humanos como pessoas, não foi possível ainda criar a metodologia de aplicação fluida e espontânea de meios compensatórios das condicionantes que promovem as situações existenciais diferenciadas.
Os problemas de solidariedade encontram assim razão sobrante e justificada de pô-la em prática quer através de acções, seja directa ou indirectamente, para melhoria de situação dos mais carenciados, quer fomentando a sua aceitação, de molde a que a solidariedade seja um modo de convivência do quotidiano.
Deste modo, iremos embebendo a própria gestão da democracia do sentimento de exigência indispensável ao homem, para se desenvolver conforme as exigências da sua natureza e para tender à perfeição do seu ser, na qual consiste o seu essencial como membro da sociedade humana.

* Director da Revista TRIBUNA da ADASCA.

EDIÇÃO ZERO DA REVISTA TRIBUNA DA ADASCA



EDITORIAL

Por: Joaquim M. C. Carlos *

A edição desta revista marca uma evolução sem igual no mundo da dádiva de sangue, não apenas pelo seu aspecto gráfico, como também pelos conteúdos, e pelo facto de se tratar de uma iniciativa promovida pela única Associação de Dadores de Sangue existente no Concelho de Aveiro.
Através desta revista pretendemos dar a conhecer as actividades que a ADASCA tem vindo a desenvolver desde o seu início, como as que vão ser realizadas no futuro, ainda que a sua edição seja trimestral.
É verdade que estamos em crise, mas não é só crise financeira que mais se faz sentir. A crise de valores morais e sociais, com o egoísmo e individualismo a minar o terreno da solidariedade, também nos preocupa imenso. Perante este sentimento não podemos nem devemos cruzar os braços.
Com a edição zero desta Revista, apenas com oito páginas a cores, damos a conhecer um pouco do muito que a ADASCA já realizou e prol da comunidade nomeadamente aquela que depende da transfusão de sangue e seus derivados.
Aproveitamos para agradecer ao Presidente do Instituto Portugues do Sangue (IPS), Dr. Gabriel Olim e à Directora do Centro Regional de Sangue de Coimbra (CRSC), Dra. Helena Gonçalves, a confiança que em nós tem sido depositada. Pela relação cordial existente entre nós, não podia deixar de agradecer às empresas (poucas) que decidiram contribuir com o seu apoio publicitário, na certeza que na próxima edição será mais expressivo.
Pela parte que me diz respeito, sempre fui caracterizado como irreverente e por muitas vezes dizer aquilo que os outros apenas pensam, e sem medo de falar do que for, sempre na defesa e pelo respeito integral dos direitos dos dadores de sangue nossos associados.
Sentimo-nos muito honrados pela gentileza de dedicar algum tempo à leitura desta Revista, o que desde já agradecemos, esperando que ela seja agradável, como também pelas sugestões que nos queiram enviar.

*Director da Revista TRIBUNA da ADASCA

11.23.2010

COMBATENDO O APOLITICISMO CONTEMPORÂNEO





COMBATENDO O APOLITICISMO CONTEMPORÂNEO

O problema político é, no momento presente, o grande problema dos povos, o problema número um das nacionalidades.
As massas desorientadas, sufocando, em seu próprio prejuízo, o escol social, ameaçam a Civilização no que ela tem de mais nobre - não propriamente o conjunto das modernas conquistas científicas, mas os princípios morais a cuja sombra a humanidade tem podido viver e desenvolver-se.

Esta indiferença é, porém uma realidade inegável, e isso já levou Angel Lopez Amo a abrir o seu livro que intitulou "La Monarquia de la reforma social", com as seguintes melancólicas palavras: "Falar ou escrever de política, em nossos tempos, é coisa tão necessária como arriscada. É necessária porque nunca como agora os povos marcharam, sabe Deus para onde, desprovidos de um pensamento político sério,
vociferando e debatendo-se com uma angústia que só é comparável à sua cegueira e ao seu pessimismo. Mas, ao tempo, homens e povos vão estando aferrados a uns princípios ilusórios, nos quais cifram nada menos do que os valores eternos da Humanidade: Liberdade, Democracia, Igualdade, Direitos do homem..."
Mas, como sentenciou o Marquês de Valdeiglésias - grande batalhador pela verdade política em Espanha - "serão inúteis todos os esforços individuais, todos os incitamentos, discussões e predicas dirigidas aos homens para que se capacitem da gravidade do momento e da importância das suas decisões, se, previamente, nada se tiver decidido sobre o grande problema da ordem política."
É portanto, um dever imperioso para os que têm responsabilidades, chamar insistentemente as atenções gerais para este problema humano.


Imagem da Assembleia da República

Muitos dormem um pr
ofundo sono político porque, tal como na parábola do Evangelho, ninguém apareceu a contratá-los para trabalhar. Outros andam desinteressados porque não se apercebem de que pode, de um momento para o outro, chegar a hora em que todos teremos que nos defender, mesmo contra a nossa vontade, para evitarmos de morrer ingloriamente.
E deste sono, e deste desinteresse resulta o apoliticismo, o grande mal desta geração, sobretudo porque, paradoxalmente, em tempo algum, como agora, as massas foram tão solicitadas, quase arrastadas a apoiar governantes ocasionais, saídos dos acasos das eleições, ou do jogo dos golpes de Estado. E este apoliticismo, que os próprios governantes fomentam, para que as massas sejam, mercê da sua ignorância, mais facilmente manejáveis e propendentes à docilidade, faz com que a participação destas na política, tenha deixado de ser um acto de inteligência, voluntário e consciente, para assumir todas as características de uma atitude passiva, quase irracional.
Combatendo o apoliticismo, não pretendemos fazer aqui a defesa de uma agitação política, esterilizante do labor da Nação. Entendemos, pelo contrário, que o cumprimento dos deveres políticos deverá ser um acto tão natural, tão despreocupado, como por exemplo, o dever profissional, não afectando qualquer dos outros deveres do homem, e enquadrando-se perfeitamente na sua vida normal.
O apoliticismo tem até o efeito de ser o primeiro e decisivo passo para o tripudio da tirania, na qual um povo está sempre em risco de cair, quando uma grande parte do seu escol se desinteressa dos problemas da governação pública.
É preciso, por isso, gritar a todos os desiludidos, aos saudosos das suas liberdades, aos arrependidos de antigas simpatias e colaborações, que o indiferentismo, abstenção, a apatia, nada resolvem, nada criam e de coisa alguma absolvem; e também esclarecer aqueles, que apesar de possuidores de espírito cívico, andam extraviados, ou correm sério risco de o serem, arrastados pelos erros filosófico-sociais que recheiam as doutrinas desumanas e satânicas. Fernando Amado disse certa altura que: "O povo tem direito à opinião; o povo tem direito ao diálogo; tem direito à crítica, tem direito a participar na vida política. E até, nas decisões graves tem direito a ser consultado. O Povo tem direito a estar presente na vida pública, representado o mais perfeitamente possível", o que não tem acontecido até aqui, porque caso contrário o País não estaria tão doente como está, tanto na área política como economicamente, quiçá a corrupção não teria minado esta sociedade em que estamos mergulhados, sem que dela nos vejamos livres.

Joaquim Carlos

* Imagem na Assembleia da República

11.22.2010

Características da pessoa amadurecida

Características da pessoa amadurecida

I. SENTE-SE BEM, COM RESPEITO À SUA PRÓPRIA PESSOA.

1. Sabe controlar as suas emoções os seus receios, a sua ira, o amor, os ciúmes, as ansiedades e o sentimento de culpa.
2. Sabe aceitar os desapontamentos da vida.
3. É tolerante, e não demasiado exigente para consigo, nem para com os outros. Sabe rir de si mesmo.
4. Não subestima, nem super estima as suas próprias deficiências e limitações.
5. Aceita as suas próprias deficiências e limitações.
6. Tem um respeito saudável (sadio) à sua própria pessoa.
7. Encontra satisfação nas coisas simples da vida: o pôr-do-sol, uma amizade, o cântico de uma criança.

II. TEM UMA BOA ATITUDE PARA COM OS OUTROS.

1. Sabe amar e considerar os direitos dos outros.
2. Estabelece e mantém relações com outras pessoas, que lhe proporcionam alegria e satisfação.
3. Predispõe a gostar de outras pessoas e a confiar nelas. E crê que elas vão corresponder!
4. Respeita e aceita as diferenças que encontra em outras pessoas.
5. Não procura mandar nos outros, nem manipulá-los; não permite que alguém assim proceda a seu respeito.
6. Tem capacidade de identificar-se com um grupo e integrar-se nele.
7. Sente a sua responsabilidade para com o vizinho e a humanidade de modo geral. Tem a consciência de que vive numa sociedade.

III. SABE ENCARAR E RESOLVER OS PROBLEMAS E OS DESAFIOS DA SUA VIDA.

1. Encara e tenta resolver os problemas, ao surgirem.
2. Aceita as suas responsabilidades.
3. Quanto possível, controla o mau ambiente; quando isso não é possível, faz os ajustamentos necessários ao seu próprio estilo de vida.
4. Faz planos para o futuro mas não receia o futuro.
5 . Recebe de bom grado novas experiências e novas ideias.
6. Desenvolve as suas capacidades naturais: procura sentir-se uma pessoa realizada.
7. Determina alvos realistas para a vida.
8. Pensa por si e decide por si.
9. Faz, de costume, o melhor que lhe é possível e encontra satisfação no próprio esforço para conseguir atingir os alvos propostos.

Joaquim Carlos
(Adaptado)

11.21.2010

CURA DO EGOÍSMO, RAZÃO DA LEI DO SACRIFÍCIO

CURA DO EGOÍSMO,  RAZÃO DA LEI DO SACRIFÍCIO

Nem todas as tendências dentro de nós são boas, de forma a poderem levar-nos a excessos. As três básicas dentro de nós dizem respeito ao espírito, ao corpo e às coisas. O instinto que pede aumento de conhecimento pode transformar-se em orgulho e a liberdade em licença. O instinto da carne e da propagação pode transformar-se em sensualidade invulgar. O instinto, ávido de posse, pode vir a ser avareza e exagero de guia. Se deixarmos à solta estes ímpetos, sem disciplina, serão como o potro por treinar ou o cão que não foi habituado à casa.
Há ainda outra razão para disciplina: é que existe em nós uma dupla lei da gravidade: uma a lei espiritual impele-nos para Deus, nosso Criador; a outra, resultado da herança do pecado, e a lei que nos empurra para baixo, para a Matéria. Todas as pessoas se transformam, de acordo com o que amam. Se a criatura ama o espírito, espiritualiza-se. Se ama a carne. materializa-se. As duas leis da gravitação podem ser comparadas a uma encosta. Se o homem sobe por meio do seu esforço e autodomínio, obedece à primeira lei. A segunda é o precipício, onde se cai fatalmente sem energias defensivas.
No egoísmo, o ego é centro de tensão, preocupação e satisfação, enquanto que aos outros se oferece a circunferência. De forma a podermos desenraizar o eu, e colocá-lo na circunferência, de forma a levarmos uma vida consagrada toda ao sacrifício, os outros têm de ser localizados no centro. Para isto, porém, é necessário domesticar os impulsos errantes, matar em nós toda a tendência para o que é baixo, por vezes disciplinar até as mais legítimas satisfações. A vida pode então atingir um ponto em que, em vez de serem os outros o centro, é Deus que começa a sê-lo. Nesta altura, o ser humano começa a ser utilizado pelo Omnipotente como instrumento Seu. Assim como um lápis escreve o que for que a pessoa dita, assim a pessoa inteiramente consagrada a Deus é instrumento do poder divino. Se o lápis voltasse contra a mão que o segura, a sua eficácia correria perigo. As obras máximas na terra são executadas por aqueles que totalmente se entregaram à vontade de Deus, em sacrifício absoluto, de forma que nos seus pensamentos, palavras e acções só poder divino se manifesta.
O desejo de erguer-se a alguma coisa de superior acaba por dar a morte a tudo que é inferior. Se as cordas de um violino pudessem ser conscientes, no momento em que o violinista as repuxa, gritariam de dor e agonia em protesto vibrante. Então o violinista teria de lhes assegurar que só submetendo-as a esta disciplina momentânea poderiam executar as mais belas melodias escondidas dentro delas. Se a um bloco de mármore fosse concedida consciência, gritaria de angústia ao ver aproximar-se o escultor com martelo e cinzel. Escondida dentro de cada bloco de mármore existe uma imagem, mas, precisamente como é impossível fazer surgir essa imagem sem retalhar, matar e sacrificar, assim é impossível ver aparecer a Divina Imagem, oculta em cada um de nós, sem ser à custa de cortes e mortificações. Tal como uma árvore dá melhor fruto depois de podada, assim a criatura produz mais e melhor se nela vier esculpir-se a cruz. O solo no Outono e no Inverno fica coberto de folhas podres, hastes e raízes, mas tudo isto produz o que é conhecido como húmus, ou antes matéria que vivifica a terra. Graças a esta morte, salpicando o chão, novas folhas, novas raízes, novas hastes surgem, cada vez em maior abundância. Como Francisco Thompson disse:
«Nada começa e nada acaba
Sem seu preço de sofrimento.
Todos nós nascemos da dor alheia,
E morremos na angústia só nossa».
Pode bem ser que o comunismo seja a morte ou o adubo ou a fecundação neste inverno de tristeza, de forma a poder surgir a primavera de uma civilização melhor. Muita gente vive abaixo do normal; se soubessem, se fossem assaz fortes para viver segundo a lei do sacrifício, começariam a exercer um autodomínio e, tornando-se senhores, capitães do próprio destino, achariam aquela paz que ultrapassa todo o entendimento. A lei do carácter exige que, se não tivermos uma Sexta-Feira Santa nas nossas vidas, nunca celebraremos o Domingo de Páscoa; sem a coroa de espinhos não pode haver halo de luz; sem corpo mortificado, não haverá corpo glorioso.
A tragédia do nosso tempo é o divórcio, visível em todas as suas obras e pompas. O maior divórcio é o que existe entre Cristo e a Cruz. O mundo ocidental divorciou Cristo da Cruz, e o comunismo pegou na cruz. Tem agora a cruz sem o Cristo.
Porque o cristianismo ocidental aceitou Cristo sem a cruz, pôs em equação o cristianismo com a doçura.
Não deseja ver as mãos trespassadas de chagas, pregando o sacrifício; só quer ver as mãos liriais, cor de neve, de um Mestre. Como Bernard Shaw disse um dia: «A cruz vista ao crepúsculo, barra o caminho». Shaw tinha razão: Barra o caminho. Veda o caminho à guerra, ao egoísmo e à crueldade. O nosso cristianismo ocidental deseja um sofá, e não uma cruz; um soporífico, não um desafio; enfim, deseja um cristianismo sem lágrimas. Trata-se pois de uma religião que não acorda oposições, porque não pode sentir-se hostilidade contra uma actínea ou contra uma cobertura de penas. Tão diluído anda este cristianismo, que é fácil fazer um pouco de Freud, um pouco de filosofia, salpicando a boa camaradagem com o sal do espírito de Kiwanis (1).
Um Cristo sem a cruz é cristianismo sem sacrifício e sem autodisciplina; é romantismo, sentimentalismo, uma mão-cheia de sensaborias com fraca resistência para o mal, absolutamente desprovidas daquela indignação moral, que pega no azorrague e expulsa compradores e vendedores dos templos. Não admira que na torrente de uma falsa amplitude de visão, o mundo ocidental tenha identificado Cristo com Buda, pois Buda também não conhecia os feitos da cruz.
Quando o cristianismo ocidental divorciou Cristo da cruz, o cristianismo recolheu a cruz, mas rejeitou o Cristo. A cruz sem Cristo não passa de um sinal de contradição, um perfeito símbolo da filosofia da dialéctica, própria para a luta de classes, tese e antítese, guerra e discórdia.
Os nazistas tinham já negado a cruz e construíram uma cruz dupla. Apoderando-se da cruz sem Cristo, os comunistas já não podem pregar o sacrifício, porque sacrifício é impossível sem amor. Possuindo só ódio nos corações, a cruz transforma-se em violência; a violência toma a forma de perseguição, exílio, Sibéria, amolecimento de cérebros, assassinato, subterrâneos do Kremlin, armadilhas da Polícia Secreta, guerra e quintas-colunas. Em todo o caso instalaram no mundo, por eles conquistado, a renúncia, não em nome do amor mas por causa de um estado totalitário. Um dia, um capitão chinês disse a um missionário prisioneiro, que lhe lembrava que ele não tinha comido ainda e eram cinco horas: «Não quero comer o arroz do povo, até ter feito o trabalho do povo». Há alguma coisa de admirável nesta entrega tão abnegada a uma causa, mas que termina na frustração: a cruz sem Cristo não passa de uma barra vertical - a vida - cortada pela barra horizontal- a morte.
De um ponto de vista religioso, não se pode admitir nem o cristianismo sentimental ocidental nem o comunismo. O problema é este: encontrará Cristo a Sua cruz ou encontrará a cruz o Cristo? Logo que o mundo renuncia ao sacrifício da imolação e da disciplina, descobre que sacrifício e imolação voltam de novo debaixo de outro nome, isto é, voltam por meio da violência e do ódio dos comunistas. Se o nosso mundo ocidental recuperasse a autodisciplina no lar, ou seja a integridade na vida da família, na educação e na vida pessoal, prepararia a paz, que só pode ser alcançada por meio da guerra.
A paz não é alguma coisa que nos seja dada; a paz é alguma coisa que nós fabricamos. Bem-aventurados os pacíficos. A paz é o produto da guerra - guerra não contra os outros, mas contra o pecado, o egoísmo e o egotismo; o salário da guerra é a cruz, não a que luta cá fora como a espada de S. Pedro, que corta as orelhas dos outros, mas uma espada virada para dentro, para cortar o egoísmo que destrói a fraternidade humana com um único pai e a Redenção por meio de Seu divino Filho. Deus odeia a paz naqueles que destinou para a guerra, e nós todos estamos destinados à guerra contra tudo o que é vil e podre em nós mesmo.

(1): Associação Internacional de Clubes de Homens de Negócios organizada em Detroit em 1915 com o fim de difundir os princípios de hostilidade comercial, boa camaradagem, etc.




CURA DO EGOÍSMO (I)

A característica da criança é a ausência de qualquer intervalo entre o desejo e a sua satisfação. Logo que uma necessidade, um ímpeto se apoderam do espírito da criança, logo ela procura satisfação imediata. Esta é uma das razões por que as crianças choram com tanta facilidade. Quando essa característica se mantém na vida do adulto - muitas vezes assim sucede - podemos realmente chamar-lhe infantilidade. Observa-se isto, sobretudo em adultos que, quando sentem a necessidade de fumar um cigarro, ficam infelizes até satisfazerem o seu desejo. Quantas pessoas haverá no mundo, capazes de negarem a si próprias a satisfação de fumar um cigarro, só como prova de autodomínio, ou porque desejam oferecer o mérito do sacrifício pelo amor de Deus e pelos pecadores do mundo?
Todo o ser humano é propenso ao egoísmo. Oscar Wilde disse uma vez: «O amor por nós próprios é o começo de um romance que dura a vida inteira». O egoísmo pode manifestar-se na jactância, na vã vaidade em procurar o melhor lugar à mesa, em aborrecer os outros - porque um massador já foi descrito como o homem que nos priva da solidão, sem jamais servir de companhia. Nunca se viu pessoa alguma que monopolizasse a conversa, sem correr o risco de a tornar monótona. Uma rapariguita, numa festa, ao ver outra convidada mesmo na sua frente pegando numa fatia de bolo, exclamou: «Que gulosa tu és; pegaste na fatia maior! Era a que eu queria para mim».
Quando os excessos começam a manifestar-se, pouca gente há capaz de tomar a resolução de contrariar os seus desejos; todavia a resolução é a única coisa mais forte ao nascer do que em qualquer outra altura. As resoluções morrem novas, como acontece aos bons. O egoísmo manifesta-se por meio do orgulho, ambição, luxúria, gulodice, inveja e preguiça. A ideia básica desta filosofia é que devemos satisfazer todas as nossas vontades a todo o momento, e, já que este mundo é a única coisa que possuímos, devemos extrair dele quantos prazeres nos for possível obter.
Devemos lembrar-nos que existe outra filosofia ao lado do egoísmo. Esta outra filosofia pode resumir-se toda no princípio: primeiro o jejum, depois a festa. A filosofia do egoísmo dá a primazia à festa, e deixa para o dia seguinte as renúncias e os lamentos. A filosofia do autodomínio crê no autodomínio, isto é, crê que cada um pode e deve ser capitão e senhor do próprio destino, se tiver vontade firme. A filosofia do egoísmo significa que só os outros devem ser mandados. Formas externas de escravidão, tais como maus hábitos, propensão excessiva para as bebidas, acabam por fazer prisioneiro o eu, pois não existe unidade interna para opor ao exército invasor. Logo que a tentação se apresenta, a personalidade sucumbe.
A melhor definição da filosofia da autodisciplina e do autodomínio é-nos dada por Nosso Senhor, a quando duma visita feita pelos Gregos. Os Gregos não se dedicavam à filosofia do prazer como acontece com a nossa civilização ocidental; em todo o caso não podiam compreender sacrifício ou amor, capazes de sofrimento em busca de um lucro maior, todo espiritual; o seu sistema desconhecia os dois extremos. Aproximaram-se primeiramente de Filipe, talvez por este vir de uma cidade que havia sido influenciada pela civilização grega, talvez porque o seu nome era grego. Diziam os Gregos qual o seu desejo de ver Nosso senhor. Por sua vez, Filipe comunicou este desejo a André, detentor também de um nome grego. Houve então uma conferência entre os dois Apóstolos com os nomes gregos. Não sabemos qual o motivo por que os Gregos ousaram pretender ver Nosso Senhor. Pode ser porque Ele dissera que o templo seria casa de oração «para todas as nações». Resolução tão revolucionária deve ter agitado os Gregos, que escutavam um dia estas palavras de Alexandre: «Deus é pai comum de todas as nações». Não sabemos precisamente por que motivo queriam encontrar-se com Nosso Senhor, mas é-nos lícito supor que vinham solicitar a resposta que Ele lhes deu.
Provavelmente, disseram-Lhe que anteviam para Ele cólera, crescendo cada vez mais, ira e decerto a morte à Sua espera. Pode ser que Lhe dissessem:«Se ficardes aqui, morrereis e a vossa vida como Mestre em breve terminará». Vinde para a nossa grande cidade de Antenas, a cidade dos homens sábios. Só uma vez matámos um dos nossos mestres, Sócrates, e nunca mais deixámos de lamentar essa morte. Se vierdes connosco é bem natural que organizareis um estado como o de Sólon ou abrireis uma escola de Peripatéticos, como fez Platão, tão grande é a vossa ciência, ou então podereis fazer reviver e criar dramas à moda de Ésquilo. Todos os conhecimentos, toda a filosofia, tudo o que é intelectualidade no mundo veio de nós. Vinde connosco. Sentai-vos no Areópago e viveremos a ouvir-vos.
Eis decerto o teor das palavras dos Gregos, pois Nosso Senhor respondeu-lhes assim: «Para o Filho do Homem chegou o momento de concluir a obra da sua glória. Acreditai-me, quando vos digo: um grão de trigo tem de se sepultar na terra e morrer, ou nunca será mais do que um grão de trigo; mas, se morrer, dará rico fruto. Aquele que ama a sua vida perdê-la-á, aquele que desprezar a própria vida neste mundo salvá-la-á, e viverá eternamente». Nosso senhor disse aos Gregos: «Vós não desejais que eu permaneça aqui; quereis que salve a vida. E eu digo-vos que há duas coisas que podeis fazer a uma semente. Podeis comê-la ou podeis semeá-la. Se a comerdes, dar-vos-á um prazer momentâneo. Se a semeardes, sofre, é crucificada, é enterrada na terra; mas multiplica-se e ressurge numa vida nova. Deixai que vos diga que me considero a semente. Não vim ao mundo para viver; vim para morrer. A morte para o vosso Sócrates foi um obstáculo; interrompeu os seus ensinamentos. Para mim, porém, a morte é o alvo da minha vida; é o alvo que procuro. Sou o Único que jamais viveu a vida de trás por diante. Vim para morrer como a semente; assim como vós admirais o homem que dá a vida voluntariamente para salvar um outro homem de morrer afogado, também eu vim para morrer, de maneira a poder salvar a humanidade. Eu não sou um homem como os outros; sou Deus e homem. Não sou um Mestre. É por isso que me convidais para que eu vá a Antenas ensinar. Mas eu sou essencialmente o Salvador, o Redentor. É possível que tenhais escutado o Sermão da Montanha e agora desejásseis ouvir pregar em Antenas esta sabedoria. Não sabeis que existe íntimo e absoluto parentesco entre a montanha das Bem-aventuranças e o Monte do Calvário?»
«Que venha alguém a um mundo freudiano e diga: «Bem-aventurados os limpos de coração», e será crucificado. Que venha alguém ao mundo atómico e diga: «Bem-aventurados os mansos», e trespassar-lhe-ão aos e pés com cravos agudos. Que venha alguém ao mundo endoidecido à busca do prazer, e diga: «Bem-aventurados os que sofrem perseguições», e coroá-lo-ão de espinhos. Não vos vanglorieis que me pouparíeis a vida se eu fosse para Antenas; dentro de um ano, a minha sentença de morte estará escrita em grego sobre a minha cruz. A morte não será porém a morte. Ninguém pode tirar-me a vida. Sou. Sou eu que me despojo da vida. Enquanto viver, a minha existência é semente por plantar, valiosa em mim, mas quando, como desenvolver-me-ei em novas vidas, em aumento sempre constante. Este aumento não virá a despeito, mas sim em virtude da minha morte, que será pela Ressurreição. Esta é a minha glória».

Conclusão da I Parte. O próximo capítulo será dedicado à "Razão de lei do sacrifício."



Os Dez Mandamentos das Relações Humanas


Os Dez Mandamentos das Relações Humanas


1º. - FALE com as pessoas. Nada há tão agradável e animado quanto uma palavra de saudação, particularmente hoje em dia quando precisamos mais de "sorrisos amáveis".

2º. - SORRIA para as pessoas. Lembre-se que accionamos 72 músculos para franzir a testa e somente 14 para sorrir.

3º. - CHAME as pessoas pelo nome. A música mais suave para muitos ainda é ouvir o seu próprio nome.

4º. - SEJA amigo e prestativo. Se você quiser ter amigos, seja amigo.

5º. - SEJA cordial. Fale e aja com sinceridade: tudo o que você fizer, faça-o com todo o prazer.

6º. - INTERESSE-SE sinceramente pelos outros. Lembre-se que você sabe o que sabe, porém você não sabe o que os outros sabem. Seja sinceramente interessado pelos outros.

7º. - SEJA generoso em elogiar, cauteloso em criticar. Os líderes elogiam. Sabem encorajar, dar confiança e elevar os outros.

8º. - SAIBA considerar os sentimentos dos outros. Existem três lados numa controvérsia: o seu, o do outro, e o lado de quem está certo.

9º. - PREOCUPE-SE com a opinião dos outros. Três comportamentos de um verdadeiro líder: ouça, aprenda e saiba elogiar.

10º. - PROCURE apresentar um excelente serviço. O que realmente vale em nossa vida é aquilo que fazemos para os outros.

(Silvino José Fritzen, 1976)